Por Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP Nacional)

O Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP) lançou nessa terça-feira, 1º de abril, o Relatório dos Conflitos Socioambientais e Violações de Direitos Humanos em Comunidades Tradicionais Pesqueiras no Brasil. A terceira edição da publicação do CPP registra dados de conflitos vivenciados por cerca de 450 comunidades pesqueiras em 16 estados do Brasil. O Maranhão lidera no número de conflitos relatados, seguido dos estados da Bahia e do Pará.
O lançamento, que aconteceu na sede do Regional Norte 2 da CNBB, em Belém (PA), contou com a participação de Dom José Altevir, bispo de Tefé (AM) e Presidente do CPP, representantes de comunidades pesqueiras vítimas dos conflitos além de pesquisadores da área. O principal objetivo do Relatório é dar visibilidade às ameaças que impactam e colocam em risco o modo de vida dos pescadores e pescadoras artesanais.
Os dados presentes no Relatório foram levantados entre os anos de 2022 e 2024. Como novidade nessa edição, a publicação também faz levantamento da percepção dos impactos das mudanças climáticas entre os pescadores e pescadoras artesanais, que foram algumas das principais vítimas dos desastres extremos causados pelo clima, nos últimos anos.
>> Acesse o arquivo do Relatório aqui.
Os dados revelam um cenário alarmante: a pesca artesanal está sendo profundamente impactada por forças externas que ameaçam sua existência. A especulação imobiliária lidera os conflitos, afetando 71,4% dos casos, enquanto 77,6% das comunidades relatam queda na quantidade de pescado, comprometendo sua subsistência. Além disso, 97,3% já sentem os efeitos das mudanças climáticas e 79,6% denunciam a ruptura de seus laços comunitários. Empresas privadas, agentes econômicos e o próprio poder público são apontados como os principais responsáveis por essas violações.
“O Relatório 2024 - Conflitos Socioambientais e Violação de Direitos Humanos em Comunidades Tradicionais Pesqueiras no Brasilé fruto da mobilização e organização de diversos sujeitos históricos que se colocam em luta e resistência para defender seus territórios da violência do Estado e do capital. Os dados apresentados revelam o nível de violência a que as comunidades pesqueiras estão sendo submetidas para atender demandas econômicas pautadas pela mercantilização e financeirização dos bens comuns presentes e preservados nos territórios da pesca artesanal”, defende o Secretário-executivo do CPP Nacional, Francisco Nonato.
Ameaças como o processo de privatização das praias com a PEC 03/2022 e de avanço de empreendimentos nos rios e mares como a recente proposta de exploração de petróleo na foz do Amazonas e de implantação de usinas eólicas no Mar (offshore), são alguns dos exemplos da intensificação dos conflitos que ameaçam a prática da pesca artesanal, além da permanência dos pescadores artesanais nos seus territórios.
“O relatório também se apresenta e se desenha como outro território da produção do possível, do justo e do necessário, no sentido de afirmar o lugar histórico da pesca artesanal e dos povos das águas na sua simbiose entre sociedade e natureza. O lugar-mundo das pescadoras e pescadores artesanais no Brasil é produzido e construído por saberes ancestrais, modos de vida, cultura e trabalho, base para pensar e sentir o bem viver”, aponta Nonato.
Os dados presentes no Relatório foram levantados entre os anos de 2022 e 2024 e contabilizam conflitos socioambientais novos (48 novos conflitos), que iniciaram a partir de junho de 2020 (momento de fechamento da coleta de dados do Relatório de 2021), mas também atualizam informações de conflitos antigos (37), que eram conhecidos desde o ano de 2015. A escolha por analisar conflitos com mais tempo, tem o objetivo de compreender o desenvolvimento desses conflitos e os elementos novos que mudaram a dinâmica de violências contra as comunidades pesqueiras. Informações sobre os tipos de conflitos sociais e ambientais que ameaçam os pescadores artesanais, agentes causadores e os impactos desses conflitos nas vidas das comunidades pesqueiras são alguns dos dados levantados pela publicação.
Como novidade nessa edição, a publicação também faz levantamento da percepção dos impactos das mudanças climáticas entre os pescadores e pescadoras artesanais, que foram algumas das principais vítimas dos desastres extremos causados pelo clima, nos últimos anos. Enchentes no Rio Grande do Sul entre os anos de 2023 e 2024 e as secas que aconteceram na Amazônia, também nesse período, causaram impactos que levaram à morte de espécies de peixes, impactos na saúde, devido à falta de acesso a água limpa, além dos impactos socioeconômicos. A seca e as enchentes são os casos mais emblemáticos, mas não são os únicos. Entre os dados levantados, aparecem a percepção do aumento da temperatura e de diminuição das espécies como algumas das consequências das mudanças climáticas. A expectativa é que os dados ajudem nos debates que ocorrerão na COP 30, em novembro, na cidade de Belém (PA), o que motivou também a escolha da capital paraense para o lançamento da publicação.
O Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras (CPP) é uma pastoral social ligada a Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Social Transformadora da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O CPP tem desempenhado desde 1968, ano da sua fundação, um serviço comprometido junto aos pescadores e pescadoras artesanais na luta por direitos e na construção de uma sociedade justa e solidária.
No ano de 2016, o CPP lançou a primeira edição do Relatório de Conflitos Socioambientais e Violações de Direitos Humanos em Comunidades Tradicionais Pesqueiras no Brasil e no ano de 2021 foi lançada a segunda edição com dados coletados de 2018 a 2020. Desde então a publicação tem se consolidado como uma pesquisa de referência na área para pesquisadores que se interessam pelo tema, além de ser uma importante ferramenta para pautar políticas públicas para os trabalhadores e trabalhadoras da pesca artesanal.

Não levante peso muito grande para você, e não conviva com alguém mais forte ou mais rico que você. Pode, por acaso, a panela de barro se juntar com a panela de ferro? Haverá um choque, e a primeira se quebrará (Eclesiástico 13,2).
Nos dias 29 e 30 de março de 2025, em Salvador / BA, nos reunimos entre pastorais sociais, movimentos, representações de comunidades de diversas regiões da e representantes da Comissão Especial para Ecologia Integral e Mineração (CNBB), articulados no Núcleo Igreja e Mineração do Regional Nordeste 3 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), para o Encontro de Atingidos/as pela Mineração na Bahia e em Sergipe. Ao longo do encontro foram relatados vários casos de destruição socioambiental e de violência e violação de direitos que as populações têm sofrido nos territórios, causadas pela atividade minerária de grandes empresas apoiadas pelo Estado, mas também foram compartilhadas diversas formas de organização e resistência que têm sido mobilizadas, o que possibilitou uma reflexão afiada a respeito dos desafios para continuar o enfrentamento ao atual modelo de mineração que vem destruindo a dignidade e a vida em nossos territórios ao longo das últimas décadas. Esse modelo é racista e colonial, uma vez que seu alvo tem sido territórios habitados por populações majoritariamente não-brancas, transformados em zonas de sacrifício para o bem-estar de outras regiões do país e do planeta.
A partilha sobre os principais problemas socioambientais presentes nos territórios e nas comunidades em conflito com a mineração e sua logística (minas, ferrovias, portos, barragens de rejeito etc.) ofereceu um quadro alarmante das violações sofridas, como a contaminação das fontes de água, do ar e do solo, grilagem de terras, aterramento de nascentes, desmatamento de áreas nativas, rachamento de casas, adoecimentos, coerção e assédio às famílias para pesquisa mineral, divisão das famílias e comunidades, dentre outras formas de violência comumente praticadas pelo modelo mineral no Brasil.
O extrativismo predatório tem se expandido sem que os órgãos governamentais responsáveis pelo licenciamento e fiscalização estabeleçam autênticas consultas prévias, livres e informadas, conforme a Convenção 169 da OIT,da qual o Brasil é signatário, e, não raramente, contando com a violência policial contra as legítimas manifestações populares, que visam ampliar o debate público e explicitar as violações de direitos humanos. Sob esse conluio empresário- governamental, tem sido estimulada a apropriação das riquezas minerais para exportação em estado bruto, sem beneficiamentos, mas também sem a construção de cadeias produtivas que beneficiem a população e respeitem as dinâmicas locais e o cuidado com a natureza, garantindo lucros exorbitantes às empresas e a seus acionistas, não raramente envolvendo o capital financeiro internacional.
Esse modelo, implementado e em plena expansão na Bahia e em Sergipe, com amplo estímulo e apoio do Estado, apoiado no falacioso discurso do desenvolvimento e da geração de empregos, tem provocado o aumento de abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes nas regiões em que mineradoras são instaladas, bem como o empobrecimento, a marginalização e o adoecimento (com altas taxas de incidência de cânceres, problemas respiratórios e transtornos psíquicos) principalmente dos povos e comunidades tradicionais que, como é bem sabido, historicamente vivem em íntima relação com seus territórios, combinando a produção de alimentos orgânicos e a preservação da biodiversidade.
Frente a todos estes conflitos, temos construído estratégias de enfrentamento e defesa dos nossos territórios através da organização comunitária, das espiritualidades, vínculos ancestrais e planos de vida das comunidades, de ações coletivas junto aos movimentos e organizações sociais, manifestações, denúncias aos órgãos públicos e responsáveis, construção das cartografias sociais, protocolos de consulta e outras estratégias jurídicas, variadas formas de incidência política, fortalecimento das iniciativas e potencialidades locais, da organização das mulheres e juventude e tantas outras formas cotidianas de luta popular.
Apesar disso, o Estado, mediado principalmente (mas não apenas) por seus órgãos de licenciamento ambiental, nega a existência dessas violações e, por conseguinte, não tem dado consequência às dezenas de denúncias feitas pelas comunidades atingidas. A combinação aterradora entre essas formas de negação e de negligência só é possível porque, como dito anteriormente, os processos de licenciamento ambiental invisibilizam as destruições socioambientais que deveriam ser previstas. Por tudo isso, é imperativo evidenciar que a Companhia Baiana de Pesquisa Mineral (CBPM), o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (INEMA- BA) e a Administração Estadual do Meio Ambiente (ADEMA-SE) têm funcionado como balcões de negócio da mineração, quando não como agentes publicitários por meio de falaciosas audiências públicas, ao que manifestamos o nosso mais profundo repúdio.
Considerando esse contexto, todas as lideranças comunitárias, pastorais sociais e movimentos populares presentes no Encontro de Atingidos/as pela Mineração na Bahia e em Sergipe se comprometem a:
São estas libertações dos atuais cativeiros, realizações do Bem Viver e da comunhão de tudo o que é vivo e merece viver, na direção da Terra Sem Males.
Salvador, Bahia, 30 de março de 2025.
Encontro de Atingidos/as pela Mineração Núcleo Igreja e Mineração - Bahia e Sergipe
Texto: CPT Ceará
Imagens: Neide Martins - CPT Itapipoca

No dia 29 de março de 2025, a CPT de Itapipoca realizou, no Assentamento Lagoa do Mineiro, na Paróquia de Almofala, Diocese de Itapipoca, em Itarema (CE), a XXIII Caminhada e Romaria das Águas. O evento contou com a participação de aproximadamente 500 pessoas, incluindo estudantes, professores, lideranças comunitárias e religiosas, além de agentes da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e parceiros da CPT Ceará.
A Caminhada e Romaria das Águas é um momento de fé, reflexão e compromisso com a defesa da vida, da terra, água, floresta e direitos. A atividade reforça a luta das comunidades pelo acesso à água e pela preservação ambiental. Durante o percurso, os participantes reafirmarão a importância da água como bem comum e direito fundamental.
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A programação seguiu de momentos de oração, depoimentos das comunidades, reflexões sobre a realidade hídrica da região e apresentações culturais, bem como teve o objetivo de fortalecer o diálogo e a resistência diante dos desafios socioambientais enfrentados pelas comunidades locais.
A CPT Ceará e as lideranças envolvidas reafirmam seu compromisso com a justiça socioambiental e convidam todas as pessoas interessadas a participarem dessa caminhada de fé e engajamento em prol da vida e da natureza.
Publicado no site do Movimento Munduruku
Link da Carta em Inglês (English Version)

Quarta-feira, 26 de março de 2025 nós guerreiros e guerreiras Munduruku do alto e médio Tapajós fechamos a dois dias a BR 163 km 25 em Itaituba, localizada sobre a ponte Igarapé Itapacurazinho, manifestando que SOMOS CONTRA o Marco Temporal e a Mesa de conciliação comandada pelo anti-indígena Gilmar Mendes que quer negociar nossos direitos já garantidos na Constituição. Ficaremos aqui até o final da votação!
Revoguem a lei 14.701 JÁ!
Nossos Guerreiros e Guerreiras se reuniram para barrar a BR 163, utilizando pneus e madeiras para interditar a via, em protesto, para dialogar com a população e chamar a atenção do poder público, sobre nosso território, nós decidimos! Nosso protesto é legítimo e deve ser respeitado!
Neste primeiro momento que estamos nos manifestando de forma pacífica, sofremos agressões físicas, xingamentos, nossos materiais foram quebrados. O racismo e o discurso de ódio dos caminhoneiros que transportam soja para os portos do agronegócio em Miritituba tem se intensificado a cada momento. Na noite do dia 25 em respeito a decisão judicial, nós liberamos a pista, e os caminhoneiros mesmo assim jogaram pedras e atacaram um de nossos guerreiros. Respeitamos o direito de todos e a via ficou aberta toda a noite, mas nosso direito de manifestação não está sendo garantido e nem a nossa segurança. Pedimos providencias dos órgãos urgentemente para garantir nossa segurança, pedimos que eles estejam aqui conosco para garantir nosso direito de manifestação. Quem será responsável se algo acontecer com nossa comitiva, será o estado, que protege sojeiros e garimpeiros que estão invadindo nosso território.
Nosso Movimento Munduruku de resistência reivindica os direitos do povo. Os ruralistas do Congresso e Senado, querem acabar com os nossos direitos e com nosso território e principalmente com as vidas indígenas, e agora o STF através do Ministro Gilmar Mendes quer rasgar a nossa Constituição e negociar nossos direitos. O governo precisa também se manifestar e proteger nossos direitos, principalmente o de sermos consultados, conforme a convenção 169 da OIT e a nossa própria Constituição. Estamos ocupando e fechando a BR 163, para que o STF respeite a nossa Constituição, acabe com essa Mesa de Conciliação e revogue de vez a Lei 14.701/23 do marco temporal que inclusive já foi decidida por essa Suprema Corte que ela seria inconstitucional. Nem o governo, congresso ou STF podem decidir sobre nossas vidas e nossos territórios, sem antes nos consultar.
Então, neste momento, estamos enviando as nossas mensagens direto ao congresso nacional e ao STF em Brasília. Para que o Ministro Gilmar Mendes possa respeitar nossa história e acabar com essa conciliação dentro do STF. Vamos continuar lutando pelos direitos dos povos indígenas de todo Brasil. Nós lutamos pelos direitos de nossas crianças, jovens e idosos.
Queremos o fim da mesa de conciliação do STF comandada pelo ministro Gilmar Mendes!
Queremos a revogação da Lei do Marco Temporal 14.701/23.
Sawe

25.03.2025: Bloqueio de rodovia no Pará: povo Munduruku em luta contra a lei 14.701/2023
por Vívian Marler / Assessora de Comunicação do Regional Norte 2 da CNBB

O Regional Norte 2, em Belém (PA), recebeu nos últimos dois dias (25 e 26), o primeiro dos cinco encontros regionais preparatório para a COP30, o ‘PRE-COP NORTE’ do Projeto ‘Igreja Rumo à COP 30’, realizado pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, que através de formações voltadas para lideranças da Igreja, promoveu um entendimento mais profundo sobre as mudanças climáticas e suas consequências. Participaram mais de 50 representantes dos Regionais Norte 1 (AM/RR), Norte 2 (PA/AP), Norte 3 (TO), Noroeste (AC/RO), Nordeste 5 (MA) e Oeste 2 (MT).
No primeiro painel ‘A Igreja e seu papel histórico de profetismo diante da crise socioambiental’, Dom Erwin Kräutler, bispo Emérito da Prelazia do Xingu (PA). “Estamos aqui reunidos para nos preparar para a COP 30, que é tão importante para nós como Igreja, porque nós acreditamos que Deus nos colocou neste lado, porque lá para nós é a Amazônia e temos uma grande responsabilidade na Amazônia e das futuras gerações. A nossa Igreja tem algo para dizer e temos que nos abrir exatamente para essa nova visão. Na visão bíblica, Amazônia não é para o lucro. A Amazônia é para viver e para sobreviver. De modo especial, conheçamos os povos originários e vivam na nossa Igreja, que é a Amazônia. A área aqui também é a sua visão da vida. E neste século os homens vivem também pensando na sobrevivência dos seus filhos, de seus netos. Que Deus nos ajude”, clamou o bispo emérito do Xingu.
O professor Mário Tito comandou o segundo painel com o tema ‘Conferências do Clima em tempos de crise: contexto geral e temas centrais’, onde falou sobre as conferências ambientais até chegar na COP fazendo reflexões sobre os principais pontos, desde o que é a governança global, que é a questão ambiental, o que atravessa as fronteiras dos países até reunir todos aqueles que estão de alguma forma envolvidos no problema, para tomar decisões que sejam ajustadas a interesses. Relembrando as Conferências ambientais desde 72 e Estocolmo, passando pela ECO 92 no Rio de Janeiro, dentre outras, falou, ainda, sobre o Desenvolvimento Sustentável, que foi a grande ideia dessas conferências, assim como a necessidade de os países serem mais assertivos.
“Há a necessidade de os países serem mais assertivos, mais claros na tomada de decisões deles, ou seja, comprometimentos com metas bem concretas e bem definidas. Porque é nessa perspectiva que surgem as COP. Na verdade, a conferência das partes daqueles que assinam um tratado, é um documento entre os Estados nacionais para tomada de decisões. Então, são esses membros, os Estados Partes. Eles realizam a COP anualmente, e nós estamos na COP 30 esse ano”, explicou Mário Tito.
Durante a tarde de ontem foi trabalhado junto com os presentes os ‘Eixos Temáticos da Conferência do Clima’ que foram debatidos por eixo temático como desmatamento zero, convergência entre clima e biodiversidade, transição ecológica e energética para uma economia de baixo carbono e financiamento.

Representantes do Regional Norte 1 (Amazonas e Roraima) no Pré-COP Norte
A professora Ima Vieira, pesquisadora do Museu Emilio Goeldi, revelou uma transformação profunda e preocupante do maior bioma tropical do planeta durante o terceiro painel ‘Crise climática e eventos extremos no bioma amazônico e área litorânea da macrorregião Norte’, e fez uma panorâmica sobre a crise ambiental que a Amazônia enfrenta há mais de três décadas após a Cúpula da Terra no Rio de Janeiro em 1992.
“As mudanças climáticas têm provocado alterações dramáticas na região com o aumento de temperatura que amplificam significativamente o risco de incêndios e provocam impactos devastadores na região. Os eventos de secas críticas têm sido particularmente impactantes e vivida pela Amazônia em 2005, 2010, 2015-16 e mais recentemente em 2023-24, especialmente durante os anos de El Niño. As consequências são profundas, os rios com níveis drasticamente reduzidos, mortandade em massa de peixes, isolamento de comunidades ribeirinhas e interrupção da navegação fluvial.
As transformações ultrapassam os limites ambientais, atingindo dimensões sociais e econômicas. A região tem experimentado um aumento da ilegalidade, elevação no número de assassinatos rurais e mudanças significativas nas práticas de agricultura familiar. A produtividade agrícola está em declínio, com previsões cada vez mais pessimistas para o futuro. Lembrando, ainda, que a Amazônia perdeu 12% de sua superfície hídrica, com 20% das 11.216 microbacias apresentando impactos de alto a extremo”, alertou a pesquisadora que aponta ações urgentes para que ações sejam tomadas.
“A Igreja tem papel importante e o Papa Francisco prega que as soluções passam pela Ecologia Integral. O tempo para agir está se esgotando. A Amazônia não é apenas um problema regional, mas uma questão global que demanda atenção, compromisso e ação imediata de toda a comunidade internacional. A COP30, surge como uma oportunidade para discutir e implementar estratégias de fortalecimento das comunidades locais para enfrentamento da crise climática”, inteirou Ima.
Divididos por grupos os participantes, ao final do dia, debateram sobre o ‘Documento de Base e Subsídio para a Incidência Política da Igreja na COP 30 – Um chamado à conversão ecológica, formação e resistência às falsas soluções climáticas’ que exige, de todos, uma postura profética, que denuncie falsas soluções climáticas e anuncie a esperança de uma nova sociedade, baseada na justiça, na fraternidade universal com todas as criaturas e no cuidado com a Casa Comum, refletindo a esperança de que a COP 30 seja um marco de resistência e transformação, guiada pela força das comunidades e pela visão de uma igreja em saída, comprometida com a justiça socioambiental e a dignidade de todos os seres.
Francisco Meireles, presidente do Conselho Nacional do Laicato no Brasil no Regional Norte 1 – CNLB N1 e membro do Conselho do Regional Norte 1 no Amazonas e Roraima, acredita ser importante a participação de todos os meios e agentes sociais dentro da Igreja para refletir sobre a PRÉ-COP “a importância da PRÉ-COP para o Norte é ter a participação de todos os meios e agentes sociais envolvidos dentro da nossa Igreja Católica, para que possamos refletir e trazer realmente as pautas que são de suma importância para essa mudança climática que está acontecendo nos últimos anos principalmente aqui no Brasil, na Amazônia. Que seja realmente frutuosa e que leve as nossas bases, as nossas comunidades, paróquias e áreas missionárias, a reflexão de um processo de mudança de atitude, de hábito de cada pessoa”.
A Igreja do Norte do Brasil, reunida em Belém, coloca-se como porta-voz para ajudar os chefes de Estado a conhecerem a realidade da região, como coloca Dom Francisco Lima Soares, bispo da Diocese de Carolina no Maranhão “a importância da PRÉ-COP Norte para todas as populações, de modo especial as ribeirinhas, é porque o grande acontecimento da COP 30 vem pelos seus chefes de Estados. Eles que tomam as decisões. Mas a Igreja se reúne para propor e para lembrar que existem dificuldades nos povos ribeirinhos e nos povos da floresta, nas cidades, nas periferias das cidades e mostra que as mudanças climáticas estão corroborando para isso. Então, é importante que a Igreja tenha uma palavra no momento da COP 30. Por isso o Norte, se reunindo aqui em Belém, começa a fazer esse olhar que às vezes os chefes de Estados não veem que existe”.
Indígena, pescador, quilombola e agricultor estiveram reunidos em uma Mesa Redonda que debateu sobre as experiências nos territórios e maretórios, que deu voz a Eduardo Soares, Secretário da Articulação Rede Eclesial Pan-Amazônica – REPAM para a COP 30, sobre a ‘Cúpula dos Povos’, que falou sobre a mobilização dos povos pela terra e pelo clima da articulação da reforma “a realização da COP 30 vem fazendo tanto nos territórios humanitários como na articulação com os movimentos populares, um fortalecimento do debate sobre a justiça climática, sobre as questões socioambientais, e a REPAM tem realizado atividades feitas pela articulação ou apoiadas nos territórios, como as perspectivas em relação às convergências que a gente tem feito junto com os territórios humanitários, mas também com os movimentos no sentido de fortalecer a essa articulação com a COP 30”, contou Eduardo Soares.
O encontro finalizou com uma Celebração Eucarística onde foi entregue um “Guia para multiplicação” e envio dos multiplicadores, sob a presidência de Dom Joaquim Hudson de Souza Ribeiro, bispo auxiliar da Arquidiocese de Manaus, pertencente ao Regional Norte 1.
“O PRÉ-COP NORTE foi muito rico em suas colocações, alertas e sugestões para a COP 30, formamos multiplicadores que irão replicar o conhecimento adquirido ao longo desses dois dias, que na verdade foi mais um reforço para toda a nossa luta, como Igreja. Que possa ecoar junto aos chefes de Estado da COP 30, e aos que indiretamente estão envolvidos nesta problemática, assim iremos ampliar a preocupaçãp da Igreja, junto as comunidades, na defesa da Casa Comum e incentivando ações concretas pela justiça climática e a ecologia integral”, fechou o evento Dom Paulo Andreolli, bispo Auxiliar da Arquidiocese de Belém e articulador da Igreja Rumo a COP 30.
O Pré-COP Norte, foi o primeiro dos cinco encontros regionais preparatórios para a COP30. A próxima reunião Pré-COP Nordeste acontecerá nos dias 11 e 12 de julho em Juazeiro (BA), seguido da Pré-COP Sul de 18 a 20 de julho, em Governador Celso Ramos (SC), Pré-COP Leste de 25 a 27 de julho, em Belo Horizonte (MG), finalizando com a Pré-COP Centro-Oeste no dia 6 de agosto em Bonito (MS).
A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025, também chamada de COP30, acontecerá na capital paraense no período de 10 a 21 de novembro.
Com informações do Cimi Regional Norte 1 , CPT Regionais Amazonas e Ceará
Edição: Carlos Henrique Silva (CPT Nacional)

A Romaria no encontro das águas dos rios Negro e Solimões simboliza a união e a ligação dos povos que habitam a Amazônia. Foto: Jesuítas Brasil / Divulgação
No Dia Mundial da Água, celebrado no último sábado (22), povos e comunidades nos estados do Amazonas e do Ceará se mobilizaram nas ruas, rios e demais fontes de águas, chamando à atenção da sociedade para a urgência da preservação dos recursos hídricos e o direito universal à água, especialmente para as populações mais vulneráveis.
Em Manaus (AM), centenas de pessoas participaram da 2ª Romaria organizada pelo Fórum das Águas, do qual fazem parte a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Serviço Amazônico de Ação, Reflexão e Educação Socioambiental (SARES) e mais de 60 organizações sociais e religiosas. O evento trouxe o tema “Nossas vozes na COP30 em defesa da água e da vida na Amazônia” e o lema “Luta por preservação e acesso para todos!”.
Foto: Ligia Apel / Cimi Regional Norte 1
A concentração aconteceu no Porto da Ceasa, reunindo organizações sociais, ativistas, comunidades ribeirinhas, indígenas, cidadãs e cidadãos comprometidos com a causa ambiental. Os participantes partiram em barcos e seguiram em romaria até o Encontro das Águas, onde os rios Negro e Solimões se encontram e formam o Rio Amazonas. O ato simbólico sublinhou a luta contra a privatização dos serviços de abastecimento e a crise hídrica que afeta milhões de pessoas na Amazônia.
“Na terra sagrada de Ajuricaba, no coração hídrico do mundo, onde esses gigantes se encontram e as águas que nascem como goteira dos Andes e fluem pelos povos e territórios até aqui para se encontrarem, o segredo da unidade na diversidade é revelado. A voz da terra se levanta e os filhos e filhas das águas e das florestas ouvem o seu chamado e o amplificam”.
Assim poetizou Mateus Amazônia, representante da organização Converge Amazônia, que reuniu durante três dias, povos, comunidades e organizações para definirem estratégias de resistência rumo à Cúpula dos Povos e à COP 30. O encontro das águas simboliza a união e a ligação dos povos que habitam florestas, comunidades, aldeias e cidades amazônicas, situadas às margens dos rios amazônicos.
A alusão ao líder indígena Ajuricaba, do povo Manaós, originário da região onde a cidade de Manaus foi construída, traz essa unicidade para a resistência. Ajuricaba resistiu à colonização portuguesa, negando-se à escravidão e lutando pela libertação dos povos indígenas no século XVIII.
Foto: Ligia Apel / Cimi Regional Norte 1
Evocando as divindades amazônicas, Iara, Iemanjá, Oxum, Cobra Grande entre outras Mães, o coordenador-geral da Articulação Amazônica dos Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana (Aratrama), Pai Alberto Jorge, convocou os participantes da Romaria das Águas a se sintonizarem com o lugar, a natureza e o Sagrado que envolvia tudo e todos.
“É preciso que Manaus venha, encha os barcos de pessoas que gritem: vamos salvar nosso rio, vamos salvar nossas águas. Elas pertencem a nós, não à [empresa] Águas de Manaus, não pertence ao governador, não pertence aos políticos, mas ao povo. Unamos nossas forças e nossa fé e peçamos ajuda a Deus e aos irmãos para continuarmos na luta em defesa das águas e da vida”, concluiu.
Pai Alberto Jorge e Padre Sandoval Alvez Rocha representando a luta pela Casa Comum. Foto: Jesuítas Brasil / Divulgação
Padre Sandoval Alvez Rocha, membro do Sares e coordenador-geral do Fórum das Águas, adverte que “apesar da riqueza hídrica da Amazônia, milhões de pessoas sofrem com a falta de acesso à água potável e ao saneamento básico” e afirma que, em Manaus, os serviços de abastecimento estão privatizados há 25 anos e, em todo esse tempo, vem gerando tarifas elevadas e atendimento precário, especialmente nas periferias.
Dados e informações como essas levaram a organização da Romaria das Águas e da Semana das Águas em Manaus, mostrando que esse Bem Comum está sendo seriamente ameaçado pelas catástrofes climáticas, consequências dos ataques à natureza para exploração econômica indiscriminada dos seus recursos.
“Nós temos passado por momentos muito tristes. Passamos por grandes secas, causadas por questões naturais e também pela grilagem de terra, o garimpo ilegal, o desmatamento e o agronegócio que aumenta o latifúndio e não dá oportunidade para as pequenas famílias e as comunidades tradicionais continuarem seus modos de vida, de preservação e conservação da natureza, também nos diversos rios que são afluentes do Amazonas. As enchentes acima da média que começam agora também trazem ameaças às comunidades ribeirinhas, mas se nós mantermos na luta permanece de preservação da floresta e biodiversidade, vamos ter água potável, que é um dom da vida, da natureza e da Trindade Santa. A água não é mercadoria nem negocio, mas um bem destinado a todas as pessoas”, afirmou o pe. Manuel do Carmo, agente da CPT Amazonas.
Foto: Jesuítas Brasil / Divulgação
Imagens: equipe de comunicação da Juventude Mandacaru de Canindé

As Romarias das Águas promovidas pela CPT Ceará e pelas dioceses locais são momentos de fé, resistência e compromisso com a defesa dos territórios e dos recursos hídricos no semiárido. Em 2025, diversas comunidades se mobilizam para essas celebrações, reafirmando a luta pelo direito à terra e à água. No domingo, 23 de março, a Diocese de Crateús realizou a Romaria das Águas nas paróquias de Independência, Quiterianópolis e Tauá e no Assentamento Nova Pintadas, em Nova Russas, fortalecendo a espiritualidade e a organização popular. Além disso, o Assentamento Itaurú, na paróquia de Ararendá, diocese de Itapipoca (paróquia de Arapari) e o sertão de Canindé também foram palco dessas peregrinações, reunindo camponeses e camponesas, pastorais e movimentos sociais, em um clamor pela vida e pela preservação dos bens comuns.
Em Canindé, as comunidades ligadas à Paróquia São Francisco das Chagas, realizaram a Romaria das Águas no sábado (22) com bastante animação, unindo a equipe local da CPT e do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra (MST). Estiveram presentes várias instituições civis e religiosas, movimentos e sindicatos.

Com o tema “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã água”, a Romaria iniciou às 07:30 da manhã com uma concentração na Quadra da Gruta, seguida de caminhada até o Açude São Mateus e a celebração eucarística às margens do açude. Ao final da celebração, a comunidade plantou uma árvore às margens do açude para simbolizar o compromisso com a natureza e em defesa da Casa Comum.

Algumas falas de representantes das comunidades ao longo do evento:
“Estaremos firmes e fortes caminhando, cantando e soltando nossa voz, porque a água faz parte da gente e não pode ser uma mercadoria.”
“Este é um momento de renovarmos nossas esperanças e nos manifestarmos em defesa dos nossos direitos”. Foram
“Realizamos nossa romaria das águas para celebrar e reivindicar nosso direito a ela.”

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